Escrito por Carolina Messias, pela Teal Brasil
Entrevista realizada por Simone Venâncio e Celso Fujisawa

Da semente ao Germinar

Não dá para falar da ComViver Desenvolvimento Humano sem falar do Programa Germinar”, conta Elisa Alkmim, coordenadora e facilitadora do programa em Belo Horizonte (MG). O programa forma facilitadores de processos e desenvolvimento humano tendo como bases a Ecologia Social e a Antroposofia.

Certificada pelo programa em 2010, pelo Instituto EcoSocial, Elisa relata como o motor da geração de impacto social por meio da transformação de indivíduos e relações esteve presente na história do Programa. Seu berço foi a iniciativa de consultores da Adigo Desenvolvimento, que já trabalhava com os temas de formação de liderança com base antroposófica para grandes empresas em São Paulo. Em 2003, profissionais formados pela Adigo pediram autorização para levar o conteúdo e a metodologia do Germinar para áreas remotas do interior do Brasil, em projetos sociais em Pernambuco e na Bahia. Com a licença de uso dos materiais, as primeiras turmas foram realizadas nesses locais gerando mudanças significativas nas pessoas e nos projetos em termos de organização, gestão, produtividade, melhoria da relação entre as pessoas e equipes, e desenvolvimento das lideranças comunitárias. O sucesso do Germinar com aquelas comunidades levou os facilitadores a buscarem se organizar, aperfeiçoar e profissionalizar para levar o método a mais lugares. Como a estrutura societária da Adigo era fechada, criou-se o Instituto EcoSocial para desenvolver novos projetos de consultoria e desenvolvimento. Dentre eles, foi ancorado o programa Germinar como o principal projeto social.

Até 2010, uma parte da receita obtida dos trabalhos de consultoria do Instituto EcoSocial era destinada a um fundo para esses projetos sociais. A maior parte desses recursos, então, era destinada a viabilizar o programa nos mais diversos territórios brasileiros, no caso, para cobrir despesas de alimentação, transporte e hospedagem dos consultores do Programa Germinar, não incluindo remuneração (a dedicação era uma doação dos consultores envolvidos). Com a expansão das turmas e o interesse de replicar o programa em mais territórios, foi criado um curso de multiplicadores do Programa Germinar para capacitar quem havia vivenciado o Programa e desejasse se tornar facilitador. Em 2012, Elisa foi convidada a formar novas turmas em Belo Horizonte, aperfeiçoou-se em 2015 como multiplicadora do Programa Germinar e hoje coordena uma rede de dez pessoas no Círculo Minas Gerais, um dos círculos que cuidam do impulso do programa.

A ComViver surgiu como declaração de independência do Instituto EcoSocial, também em 2015, como estrutura organizacional para o Programa Germinar seguir cultivando ambientes de transformação. “O Programa Germinar tinha a sua autonomia em suas atividades. Os representantes para o Grupo Gestor eram eleitos pela Assembleia”, conta Elisa sobre a organização inicial do grupo ainda ligado ao EcoSocial. Um grupo chamado G4, composto por dois membros do Instituto e dois membros da formação de multiplicadores Germinar, cuidava da parte administrativa e financeira do Programa; outros assuntos eram discutidos e consentidos em assembleias com todos os participantes. Com a expressividade do Programa e o aumento de multiplicadores externos ao EcoSocial, decidiram constituir a cooperativa chamada ComViver. A partir de então, para estar no Germinar era preciso ser cooperado. Contudo, as mudanças estruturais não pararam por aí.

Mudanças na natureza jurídica e na governança da organização

Nascida como cooperativa, a ComViver deu seus primeiros passos como organização verde enfrentando os desafios de abarcar o trabalho burocrático, administrativo e fiscal, que antes era feito pelo EcoSocial, e de lidar com a quantidade de assembleias para deliberar todas as decisões. O grupo gestor G4 foi mantido e contrataram uma assistente administrativa para dar apoio ao trabalho.

“Época muito difícil. Foram muitas trocas de papéis antes do final do mandato de dois anos de cada gestão”, lembra Elisa sobre as discussões nas assembleias, os conflitos entre membros e a quantidade de mudanças que levou a um estresse generalizado. Em 2017, os membros passaram a reavaliar o modelo organizacional e chegaram a uma proposta de se tornar Associação, que foi discutida e aprovada em assembleia. O grupo gestor ficou a cargo de Tiago Sartori, Rodrigo Bergami, João Gabriel e Márcia Andrade, que assumiram com o apoio da gestão anterior o desafio de fechar a cooperativa e repensar o modelo de negócio da ComViver como associação no período de um ano. 

Diante dos desafios para tomada de decisão  em consenso em assembleia e alinhamento dos trabalhos com profissionais muito diversos, distantes geograficamente e com níveis de acesso diferentes às informações da Associação, a estrutura participativa das assembleias abertas a todos os membros passou a ser repensada. Em 2019, a ComViver contratou a Consultoria BioInspiral para dar início a um processo de autogestão e implementar a Sociocracia a fim de reduzir a polarização entre grupos e as falhas de comunicação entre as regiões e os membros; horizontalizar e fortalecer as relações, então estressadas; e otimizar as reuniões e a tomada de decisão. As facilitadoras Nara Nishitani, Fabiana e Tanya Stergiou conduziram a implementação do modelo sociocrático, trazendo um novo paradigma estrutural para a ComViver: separaram as regiões de atuação por círculos regionais, aportaram o conceito de círculos com papéis claros a energizar e uma representação por região para a tomada de decisão em uma nova instância, chamada círculo de anfitriões.

“A Sociocracia nos trouxe maior comprometimento, níveis mais altos de criatividade, mais harmonia e um aumento dramático da produtividade”

Marina Franco, também facilitadora e membro da ComViver

Desenvolvimento dos círculos de autogestão

Desde o final de 2018, em sintonia com seu propósito de semear autonomia, confiança e coragem social para transformar, a ComViver vem praticando a autogestão. Cultivando os pilares da Sociocracia, eficácia e equivalência, em seus acordos e processos de acesso à informação, tomada de decisão e atuação, a organização se estrutura hoje em oito círculos regionais, sendo um círculo de representantes das regiões – anfitriões – que tomam as decisões referentes ao Programa Germinar (hoje Círculo Germinar), mais um círculo dedicado especificamente a cada um dos temas a seguir: geral, coordenação, comunicação, fiscal, fraterno e diversidade e inclusão.

Os Círculos Regionais têm autonomia e são responsáveis pela própria tomada de decisão. Cada grupo regional pode decidir quais serão os papéis e quem irá energizá-los, desde que cumpram os papéis mínimos de governança. “Se entenderem os princípios, os acordos, os contornos e as diretrizes, é possível a implantação”, aponta Elisa. Já o Círculo Fraterno foi criado após a estrutura inicial para cuidar da unificação de alguns processos, como a aprovação de recursos para turmas que apresentem necessidades financeiras. Mais recentemente foi oficializado o Círculo de Diversidade e Inclusão, anteriormente um grupo de trabalho que viu o tema ganhar relevância dentro da organização e hoje traz uma das principais diretrizes de apoio ao Programa Germinar.

Em 2020, a ComViver passou pela primeira avaliação interna da implantação da autogestão e reconheceu muitos avanços e também desafios. Entre os progressos, Elisa reconhece que a autonomia aumentou muito; houve um aumento na efetividade das tomadas de decisão e as pessoas estão mais engajadas nos processos decisórios. Contudo, a Associação ainda enfrenta resistências ao modelo autogerido (por exemplo, há questionamento sobre a transparência e a autonomia nos Círculos por pessoas que ainda acreditam mais em decisões por meio de assembleias), os membros ainda estão reconhecendo a importância de seu papel e de suas responsabilidades, e alguns ainda não se sentem com autoridade suficiente para tomar decisões, levando muitas pautas e tensões para consultas no Círculo Geral ou tentando escalar as decisões para o Círculo de Coordenação.

Imagem ilustrativa dos círculos de autogestão:
Disponível no site da ComViver.

Cultivando a evolução

A principal prática Teal da iniciativa ComViver é o desenvolvimento do modelo de autogestão, que sempre esteve presente como valor no Programa Germinar, o “xodó da Rede”, como conta Elisa Alkmim. Com a autogestão aplicada na estrutura organizacional, a ComViver pôde discutir e experimentar modelos jurídicos diferentes, desenvolver alguns membros em cursos e contratar facilitadores para apoiar a estruturação e a implementação da Sociocracia, gerando mais clareza e alinhamento entre os associados e o desejo de evoluírem, juntos, como organização. O passo Teal para evoluir da mentalidade verde tem sido o desenvolvimento desse modelo autogerido e também o fortalecimento do propósito evolutivo em torno da geração de confiança, autonomia e coragem para transformar.

Para seguir cultivando essa evolução, será importante enfrentarem também a questão da identidade da ComViver e do Programa Germinar, cujas fronteiras ainda seguem pouco claras. Já foram feitas várias propostas para criar outros projetos além do programa, mas ainda foi possível avançar nessa questão. A pandemia também afetou de perto a realização do Programa, que sempre aconteceu presencialmente, pois há dúvidas sobre a efetividade e o impacto do trabalho deles on-line.

Além disso, a natureza jurídica ainda apresenta desafios na questão da remuneração, pois, como explica Elisa, “na condição de associação, o estatuto não permite que o associado possa receber recursos diretamente da associação. A nota fiscal não pode ser de um associado. É um grande transtorno, pois os programas só podem cobrir as despesas de locomoção e hospedagem”. Os facilitadores que oferecem os cursos de formação recebem remuneração por meio de uma gestão de caixa controlada por um papel financeiro das próprias turmas, responsável por isso. Cada turma tem um livro-caixa próprio. Apura-se o resultado e remunera-se os facilitadores. O trabalho de gestão, no entanto, continua sendo voluntário.

Para resumir, a ComViver lança as seguintes sementes férteis do paradigma Teal:
▪️ papéis bem definidos e organizados em Círculos autogeridos, com responsabilidade e autonomia;
▪️ processos de tomada de decisão sociocráticos, com levantamento de tensões e propostas para papéis ou círculo responsável deliberar;
▪️ liderança compartilhada e com decisões tomadas por consentimento, não mais por consenso;
▪️ informações descentralizadas, transparentes, organizadas e acessíveis em repositório próprio.

Como desafios evolutivos, a ComViver:
▪️ lida com tensões e resistências de pessoas mais ligadas ao modelo anterior, na estrutura horizontal, o que impacta o processo decisório e o empoderamento dos papéis;
▪️ sente que carece de uma diversificação das atividades, inclusive para se manter ativa na pandemia;
▪️ enfrenta pensamentos divergentes sobre a identidade da iniciativa: “o que é o Germinar e o que é a ComViver?”;
▪️ encontra dificuldades na forma jurídica que abarque o modelo autogerido e a remuneração.

Rede ComViver

Semente de gente pede convivência para germinar. O adubo que a Rede ComViver semeia para desenvolver pessoas acontece com a entrega do Programa Germinar, que já formou mais de 4.500 pessoas, e também com seu modelo de autogestão, que mobiliza mais de 60 facilitadores distribuídos por cidades da América Latina.