Por Gabriela Inácio e Rafaela Rolim pela Teal Brasil
Entrevista a Beatriz Diniz (Cruzando Histórias)

Nascendo com propósito

A iniciativa Cruzando Histórias aconteceu a partir do choro desesperado da Sueli e tornou-se uma Organização da Sociedade Civil, com sede em São Paulo e atuação on-line por todas as brasileiras e brasileiros. Reúne pessoas que acreditam poder humanizar o mercado de trabalho pela escuta, o acolhimento e o empoderamento das pessoas sem trabalho e renda. 

Já bastante frustrada com as experiências profissionais anteriores, essa narrativa de Sueli e os diversos índices de desemprego desencadearam uma mudança de rota na vida de Bia: unir a vontade de atuar com impacto social ao conhecimento em Recursos Humanos adquirido na sua jornada profissional. Era o início do Cruzando Histórias, um projeto que nasceu de uma iniciativa individual e que conecta pessoas, num ambiente de empatia e colaboração, humanizando os números do desemprego por meio da valorização das mulheres e histórias que existem por trás dos gráficos. Hoje, mais de quatro anos depois do seu lançamento, a organização já impactou diretamente 8 mil pessoas.

A ONG faz o acolhimento de mulheres que perderam seus empregos por motivos como maternidade, idade e machismo, apoiando sua capacitação e reinserção no mercado de trabalho. Segundo Bia, “os homens têm uma autoestima profissional maior do que as mulheres, que ‘não se acham boas o suficiente’ para dar conta de algo”

A escuta é o principal valor da instituição, cuja metodologia se baseia na Comunicação Não Violenta (CNV) e na autocompaixão.

O propósito evolutivo traduzido na oferta da escuta

A Cruzando Histórias oferece um programa de empoderamento e capacitação para mulheres que muitas vezes deixaram de acreditar em si mesmas e no seu potencial. A maior parte das atendidas pelo programa se classifica como preta e parda, 75% das atendidas são mães e 44% são chefes de família. A média de idade é de 38 anos, e 81% das atendidas têm renda familiar inferior a R$ 1.600,00. A maior parte delas é de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, porém a transição do programa para o meio virtual, durante a pandemia, expandiu essa atuação para outros estados brasileiros.

O programa semeia também a integralidade dos participantes voluntários – pessoas físicas ou colaboradores que participam por meio da parceria com empresas. Após uma formação sobre empatia e escuta, o voluntário passa a ofertar escuta às mulheres atendidas pelo projeto, que se inscrevem pelo site da organização. São mulheres em situação de desemprego e que trazem suas dores, sonhos, e a “escutadora” oferece uma mentoria de vida e carreira. 

Na sequência desse atendimento, as participantes do programa têm acesso à psicoterapia breve, além de oficinas de empreendedorismo e cursos de tecnologia, conforme o interesse e o engajamento das participantes. Atualmente, o programa é aberto para qualquer pessoa que queira se inscrever. Tudo acontece on-line. As atendidas têm acesso a uma plataforma EAD de Empregabilidade, que engloba aulas voltadas ao autoconhecimento aplicado à carreira, onde e como procurar vagas e como se preparar para uma entrevista.

Todo o processo de acolhimento, escuta e capacitação pode também ser ofertado por meio de parcerias com empresas que desejam envolver seus colaboradores em programas de voluntariado corporativo. A empresa financia um projeto social, ao mesmo tempo que forma seus colaboradores na habilidade de escutar pela metodologia da Cruzando Histórias. Após formados, os colaboradores podem então praticar um momento de escuta e mentoria com as mulheres atendidas pelo programa. É uma forma de financiamento que gera impacto na ponta e também no processo de autoconhecimento e desenvolvimento dos voluntários engajados dentro das empresas.

Bia compartilha conosco a transformação que esses encontros oferecem, um aumento de empatia que faz com que os participantes saiam do comum e aprofundem suas percepções e o entendimento sobre a vida do outro, reconhecendo seus preconceitos e pontos de inflexão. O programa conta também com o monitoramento de indicadores sobre a percepção dos níveis de empatia dos voluntários em relação aos colegas, aos fornecedores e também avaliando melhorias no nível de estresse.

Autogestão 

A estrutura interna atualmente é formada por 4 funcionárias e 40 voluntários. 

Como durante a pandemia o atendimento presencial se tornou virtual, isso proporcionou um enorme crescimento, multiplicando em sete vezes o impacto da organização, quando passaram a atender não somente São Paulo, mas pessoas do Brasil todo.

Para organizar o trabalho de forma que haja clareza dos papéis e para que possam crescer como organização, a equipe atua em uma estrutura horizontal, na qual operam de forma autônoma por meio de círculos temáticos: Sustentabilidade, Tecnologia, Comunicação, Pessoas e Produtividade.

A equipe, seja contratada ou voluntária, reúne-se nos círculos de acordo com sua disponibilidade e vontade de contribuir. Cada círculo possui uma liderança, alguém que tem uma visão mais ampla da organização.

As trocas principais acontecem pelo Trello e grupos deWhatsApp. O time também se reúne uma vez por mês virtualmente, quando todos têm oportunidade de falar e contar como estão e do que precisam. Por um tempo, a equipe também utilizou o framework PPP para acompanhar progressos, planos e problemas, uma forma de monitorar a evolução do trabalho. Atualmente, esse formato tem passado por ajustes e melhorias.

A integralidade é expressa também no cuidado com os colaboradores 

Dentro da ONG, as vagas são abertas de acordo com as demandas de trabalho e não exigem experiência. Os candidatos encaram o desafio como uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento, além de se conectarem diretamente com o propósito da organização.

O onboarding de novos colaboradores e voluntários inclui um formulário “Quem é você hoje”, treinamento, roda de acolhimento com um especialista em CNV e mindfulness, roda de escuta e um e-mail muito divertido, focado na inclusão digital, explicando com carinho sobre o uso do email, Google Drive e Trello.

Em encontros semanais, não obrigatórios, a liderança sempre garante um tempo para cada um falar, e a reunião só começa quando todos estão de corpo e alma presentes. Se uma pessoa não usa o tempo total destinado à sua fala, o grupo todo pratica junto o silêncio. 

Só vamos começar quando todos estiverem inteiros aqui”, relata Bia, ao se referir a essa prática de esperar a real presença de todos.

No Cruzando Histórias, é indispensável que todos possam se sentir escutados, ter voz, mesmo que seja para errar. “Aqui é um lugar para errar, desde que esse erro leve para um acerto. Como eu tenho mais experiência, às vezes sei que algo pode não dar certo, mas dou autonomia para que experimentem o erro também.”

Como consequência de todo esse processo, a equipe e também as mulheres atendidas pelo programa se percebem com um maior grau de conexão com o outro, percebem-se mais empáticas e notam uma melhora nos seus relacionamentos pessoais. São comuns depoimentos como: “Tenho respeitado mais o tempo das coisas” ou “Aqui eu me sinto abraçada”.

Escalar a escuta

“Escalar a escuta” – assim resume Bia o propósito essencial da Cruzando Histórias. Laloux, no livro “Reinventando as Organizações”, traz a integralidade como esse elemento essencial para que as pessoas deixem de usar máscaras nas organizações e sejam elas mesmas. Organizações Teal são aquelas que criam espaços seguros e de confiança no trabalho, e para isso gastam um montante de tempo e energia significativos treinando as pessoas para relações saudáveis. Essa qualidade e essa dedicação de tempo para formar as pessoas a escutarem melhor retratam essa preocupação e a essência genuína da Cruzando Histórias. E em cada detalhe, cada programa, cada captação de recursos, a escuta está presente e direcionando a ação de todos.

Para conhecer mais sobre as histórias compartilhadas, acesse o Blog da Cruzando Histórias.