Escrito por Carol Steiner e Gabriela de Sá, pela Teal Brasil.

“A necessidade de viver, produzir e preservar a Amazônia fez com que essas pessoas juntassem suas forças”

Ademir Venturin, um dos iniciadores da cooperativa

Em 2009, um grupo de agricultores familiares de Medicilândia-Pará, durante uma feira da cidade, criou a Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (Coopatrans) como uma solução para habitar e preservar suas terras de origem, em um contexto de readequação ao novo Código Florestal e de conflitos em relação ao uso da terra. 

Um ano depois, a cooperativa decidiu investir também na produção e comercialização de chocolate em vez de focar apenas no cultivo tradicional do cacau para a comercialização da amêndoa – como é comum na região -, iniciando assim a marca de chocolates Cacauway.

A proposta era agregar valor à amêndoa do cacau para produzir um chocolate diferenciado, aportando inovações e incluindo o uso da tecnologia. O conceito era surpreendente para aquele ecossistema: fazer chocolate no interior da Amazônia por meio de uma produção em pequena escala e de um produto com altíssima qualidade. Essa ideia se desenvolveu como forma de enfrentamento, afirmação política e esperança, resistindo a uma economia local marcada pelo atravessamento e pelo escoamento de produtos de baixo valor agregado. 

Outra grande inovação foi a opção pelo cooperativismo, resistindo longos anos em uma região em que esse tipo de organização não tinha muito espaço. Juntos em uma história de 11 anos, diante do sonho de “viver, produzir e preservar a Amazônia”, os agricultores partiram de um contexto em que não sabiam fazer chocolate e com baixíssimos recursos financeiros para um cenário de premiações de qualidade nacionais e internacionais. “Tudo isso por meio do aprender compartilhado”, como diz Ademir Venturin. O sonho se concretizou por meio da criação de oportunidades de emprego e renda para as famílias da região, além do aumento da preservação ambiental. 

Viver – Integralidade e resiliência

A história da Coopatrans é marcada pela sua forte capacidade de resiliência e de superação de dificuldades. O propósito da iniciativa impulsionou a resiliência em um contexto de prejuízos até o oitavo ano de existência, superado gradualmente diante da doação de tempo e de trabalho dos sócios e do quadro administrativo, que chegaram a trabalhar cerca de 5 a 10 anos voluntariamente. Essa resiliência, segundo Ademir, “tem relação com a força de luta para ter dignidade de viver”, que se conecta intimamente com a promoção da qualidade de vida da comunidade e da preservação do meio ambiente.

Nesse contexto, os sócios agricultores vivenciam a integralidade, ou seja, a possibilidade de serem eles mesmos – por inteiro – na organização, a partir do reconhecimento e do incentivo do desenvolvimento familiar no cultivo do cacau. As famílias são orientadas a estudar, aprender e se desenvolver em técnicas de cultivo que respeitam o desenvolvimento do cacau em suas fases naturais. Isso faz com que aumentem seu nível de consciência quanto à importância de abrir mão de mecanismos que aparentemente acelerariam o processo produtivo – desde o cultivo à extração da amêndoa do cacau – para um processo que respeita a natureza, o ciclo natural da planta e a regeneração do solo com o empenho na criação de agroflorestas ao redor das áreas produtivas.

Produzir – Autenticidade, propósito e qualidade

Um dos pilares do propósito da cooperativa é o de fazer com que as pessoas conheçam o que é chocolate de verdade, levando satisfação e qualidade de vida para quem o consome. Ao agregar valor ao trabalho dos agricultores, garante-se a diferenciação e a inovação desde a matéria-prima até o produto final, diante da produção de uma amêndoa premium que proporciona a produção de um chocolate puro, orgânico e saudável. 

A força desse aspecto se desenvolveu a partir da intenção ousada de participar da ideia macro do chocolate, acreditando na possibilidade de produzir o melhor chocolate do Brasil. Afinal, como diz o Ademir: “por que só a Suíça pode fazer o melhor chocolate, sendo que temos amêndoas de cacau excelentes na Amazônia?”. Um dos grandes objetivos é a busca por gerar transformação, aprendizado e valorização na comunidade local, com alcance nos âmbitos municipal, regional, nacional e até internacional. Além do fomento de informações, debates, eventos, capacitações e inovações, há também o intuito de despertar outras iniciativas e gerar um movimento de coevolução cada vez mais abundante na região Amazônica. Fica evidente, assim, um senso mais profundo de propósito evolutivo – um dos pilares das organizações Teal -, que transcende os objetivos palpáveis da cooperativa, que inclui o cultivo regenerativo do cacau, a extração consciente e cuidadosa para a geração de uma amêndoa diferenciada e as consequentes produção e comercialização de um chocolate de alta qualidade e mais saudável. A atuação da cooperativa vai além, contribuindo diretamente com o desenvolvimento e a evolução das famílias e dos profissionais, da natureza, da comunidade local naquele município, do estado do Amazonas e do mercado cacaueiro e de chocolate no Brasil, com um posicionamento e uma oferta mais confiante, consciente e inovadora.

Esse aspecto foi desenvolvido, desde o início, por meio da construção do aprendizado compartilhado e do diálogo. Na prática, as alternativas de melhoria foram pensadas em assembleias mensais em que todos os sócios discutiam a importância da qualidade e as questões do campo, o que evidencia uma abertura da iniciativa para a autogestão, as quais influenciaram na escolha, por exemplo, de recursos e processos mais orgânicos e adequados às características das matérias-primas e ao objetivo de um produto premium

O desafio, nesse âmbito, foi a criação de um alinhamento em relação à importância de manter rigorosamente a qualidade das amêndoas de cacau.

Preservar – Inovação e impacto no meio ambiente 

A forte preocupação ambiental é outro elemento fundamental da iniciativa, por meio da adoção de medidas que buscam preservar a Amazônia. Desde a sua fundação, a cooperativa visualizou e sentiu o potencial da pequena cidade de Medicilândia (PA) na expansão da produção cacaueira, substituindo um cenário marcado por agentes importantes de desmatamento e de desequilíbrio do ecossistema – cana-de-açúcar e pastagem. 

O processo produtivo do cacau, a verticalização da cadeia, destaca-se como sustentável porque o cacau precisa de sombra, implicando na existência de uma mata secundária de floresta cobrindo-o. A Coopatrans, nesse sentido, afirmou-se como uma das protagonistas na recuperação de áreas degradadas da região, por meio da conscientização e do empoderamento coletivo, visando a criação e a expansão de práticas mais abundantes em relação à natureza. 

Cooperativismo e tomada de decisão

Os três pilares do propósito da cooperativa – viver, produzir e preservar – influenciam a tomada de decisões e a própria construção de relações. A relação com as famílias produtoras de cacau, por exemplo, é essencial para que os resultados aconteçam. A gestão também é impactada, pois todas as famílias são parte integrante da cooperativa, em um processo fluido de gestão e tomada de decisões, em que todos são donos e responsáveis pelo todo. 

Os conflitos e as decisões são geridas com base no Estatuto Legal. Nos primeiros quatro anos da cooperativa, os impasses eram discutidos em assembleias extraordinárias mensais (alinhamento, informação e deliberações) com a presença de todos os sócios agricultores, tendo como base a conscientização e a superação das inseguranças, principalmente, em relação aos assuntos produtivos e comerciais. De acordo com Ademir, “Um dos maiores conflitos apresentados foi a dificuldade de compreensão de determinados sócios agricultores em relação à importância de manter rigorosamente a qualidade das amêndoas. Esse desalinhamento foi resolvido a partir de discussões em assembleias e do estabelecimento de critérios de qualidade no Estatuto Legal”. 

Ao longo dos anos, com a consolidação da qualidade da produção dos sócios, a tomada de decisão se dividiu em dois eixos: diretoria e coletivo ampliado. A primeira tem a responsabilidade de tomar decisões internas, por meio do registro por votação nas atas legais, das necessidades do dia a dia, constituindo-se de um grupo homogêneo em que cada diretor contribui para propostas e melhorias das áreas. O segundo delibera questões postas em assembleias de acordo com a demanda, sendo que todo ano existe uma reunião ordinária com a prestação de contas. 

Organização com constante potencial de evolução 

A Coopatrans Cacauway expressa uma trajetória de superação de desafios e possui um grande campo de oportunidades para se desenvolver como uma organização evolutiva, tendo espaço para ampliar o alto teor de resistência, preservação e colaboração concretizado na sua produção de chocolates. 

A integralidade é claramente percebida no cuidado da iniciativa ao desenvolver as famílias, gerando renda e conhecimento. Nesse ponto, emerge o potencial da criação de espaços que deem suporte para a reflexão interna dos sócios e dos colaboradores, gerando oportunidades de autoconhecimento e de incentivo no convite dos aspectos humanos individuais para o trabalho. 

Além disso, é clara a relação do propósito evolutivo da organização com a vida e o propósito individual dos seus integrantes, como fica evidente na história de Hélia Félix de Moura, que se encontrou enquanto agrônoma na organização, e de Ademir Venturin, que continuou expressando a sua voz ativa e percorrendo sua trajetória de militância social-política na Coopatrans. Todavia, também é necessário questionar: esse alinhamento é presente para todos os sócios e colaboradores? Quais práticas podem ser pensadas a fim de trazer os propósitos individuais para a consciência? Quais práticas podem ser pensadas para trazer clareza entre a conexão dos propósitos individuais e o propósito da cooperativa?

Por fim, no pilar da autogestão, ressalta-se o cuidado existente na iniciativa em relação à abertura de ambientes de equivalência entre as vozes, por meio da gestão participativa e do diálogo das assembleias. Entretanto, também é importante enfatizar o potencial de ampliação dos espaços de escuta e de participação, por exemplo, diante da criação de papéis e da distribuição das responsabilidades estratégicas e operacionais dos diretores para os sócios e os colaboradores. Outro ponto se relaciona com a manutenção da estrutura hierárquica atual – como poderiam se beneficiar de outras práticas de autogestão, além da equivalência de vozes? Como dar mais autonomia para os colaboradores? Como pensar em um uso maior dos talentos na criação de papéis e responsabilidades?


Coopatrans Cacauway

Levar qualidade de vida para os consumidores, gerar emprego e renda e desenvolver uma produção que cuida da preservação da Amazônia são os pilares do propósito da Coopatrans Cacauway. Em quase 11 anos de história, a organização resiste com raízes firmes na inovação, na valorização do cacau brasileiro e na ação cooperativa.