Escrito por Camile Costa e Gabriela Rodrigues, pela Teal Brasil

Cosméticos íntegros, com preços socialmente justos e uma outra forma de se relacionar

A Bhava Biocosméticos Livres nasce para colocar em prática o que seus fundadores, Leandro e Priscila, vinham aprendendo sobre empreender-se, economia em rede, negócios exponenciais e visão sistêmica. “Antes trabalhávamos na bolsa de valores, eu brinco que são ‘vidas passadas vividas nessa vida’, tínhamos aquela vida bem paulistana mesmo, com dois filhos. E a gente começou a se questionar ‘o que estamos fazendo aqui? O que a gente quer?‘’, comenta Leandro.

Viver em São Paulo e trabalhar na bolsa havia deixado de fazer sentido e, assim, os fundadores da Bhava se desafiaram a mudar e iniciaram uma jornada de buscas e experiências. Leandro criou um site de hospedagem colaborativa, assumindo a curadoria do Festival de Ideias e se envolvendo em projetos colaborativos tendo como guia Osvaldo Oliveira. E, como diz, “aí pensei: é esse o mundo que eu quero viver, é isso que eu acredito como valores. Com tudo isso pulsando, a gente deu o salto no abismo, vamos mudar para a Ecovila”. 

E assim começa a história da Bhava, em 2015, quando Leandro e Priscila decidem “deixar tudo” e ir viver na ecovila Terra Una, localizada em uma APA (área de proteção ambiental) na Serra da Mantiqueira, “local de ar puro, natureza exuberante e águas cristalinas em abundância”, para fazer cosméticos de uma forma diferente, prototipando tudo que aprendiam e iniciando um negócio 100% open source “para qualquer pessoa fazer para seu próprio uso, para gerar renda, para criar comunidade”, conforme comenta Leandro.

Ações orientadas pelo propósito e foco na relação e criação de comunidade

Um ponto relevante de sinergia com as práticas Teal está no fato de a Bhava buscar orientar suas ações sempre na direção de seu propósito evolutivo, qual seja, produzir cosméticos naturais, de forma distribuída, para comercializá-los com preços justos na perspectiva de toda a rede produtiva e consumidora. Seu propósito é o que sustenta a colaboração e a confiança, pilares da Bhava para a criação de comunidade. Na perspectiva dos fundadores, “a gente vai se ajudando porque isso faz parte de um grande movimento que é a cosmética natural, que é levar cosméticos íntegros ao maior número de pessoas possível, é nossa missão hoje na Bhava, e tentar fazer isso de uma nova forma de fazer negócios”. 

A criação de comunidade, ou seja, a existência a partir das relações, é algo basilar para o negócio, estando no centro de seu propósito. E quando pensam em comunidade, os fundadores incluem revendedores, representantes e também concorrentes, comentando que já fizeram “várias ações de compra coletiva para diminuir o custo de todo mundo”.  O direcionamento para criação de comunidade é também ilustrado pela abordagem que os fundadores têm com os novos revendedores. Nas palavras de Leandro: “muitas pessoas vem pedindo para revender Bhava e a gente liga para cada uma antes, perguntando: você sabe onde está entrando, conhece o que tem por trás da Bhava? Conta um pouco de você, como vamos ser parceiros? É muito forte isso, de ser pessoas, seres interagindo”.

Neste ponto, a Bhava passou por importantes aprendizados sobre como colocar em prática seu foco na relação e sua intenção de criação de comunidade. “Partimos de uma postura e pensamento egóicos de que iríamos ser um guarda chuva para várias empresas e pessoas interagirem e produzirem Bhava. Hoje já vemos que queremos ser mais um ponto, mais um nó, que fomenta culturas e tecnologias para que as empresas possam produzir a partir disso e cada um com sua marca, com sua história, interagindo”, comenta Leandro.

Na prática, esta mudança de postura está expressa na coconstrução de iniciativas, junto a outras marcas de cosméticos, estruturada de forma horizontal. Um dos principais projetos neste formato horizontal consiste em um ambiente compartilhado, com divisão de custo e mesmo endereço físico, idealizado para facilitar a logística de envio e coleta dos produtos. As iniciativas comportam outras vertentes, como, por exemplo, um  espaço compartilhado de produção FabLab, que está em construção, uma iniciativa de compras coletivas e a formalização da associação de pequenos produtores, que constituirá uma figura jurídica para abarcar os CNPJs de outras marcas. Nesse sentido, observa-se o intuito de despertar outras iniciativas e gerar um movimento de coevolução cada vez mais abundante para o setor. 

Autenticidade e integralidade na criação e desenvolvimento dos produtos

A definição dos produtos na Bhava passa pela integralidade dos fundadores, isto é, cada item é desenvolvido a partir de uma preocupação autêntica, que é então traduzida em solução cosmética. Nas palavras de Leandro, “eu acho que a Bhava é bem sucedida porque a gente é com essência aqui”

Um exemplo pode ser ilustrado pela linha Lixo Zero, produzida em parceria com a Papel Semente do Rio de Janeiro, em que os cosméticos em barras são embalados em uma caixinha de papel semente e geram, nas palavras de Leandro, “zero plastico, zero lixo, terminou você pode enterrar a caixinha e ela volta a ser planta de novo”. A autenticidade e integralidade são ilustradas pela fala de Leandro a respeito da Linha Lixo zero, quando comenta que “isso não foi por marketing que a gente criou, é uma preocupação autêntica nossa, estamos pensando o tempo todo em qual impacto estamos gerando”.

Novo paradigma: colaboração, abundância e aprendizado pela experimentação

A Bhava é vista, desde o seu início, como um organismo vivo, que funciona de acordo com as pessoas que interagem no projeto, focando seu propósito na relação, na forma de se relacionar. “Os cosméticos são só uma desculpa que a gente inventou para se relacionar dentro de um outro paradigma”, comenta Leandro, que define a Bhava como um “modelo de negócio baseado em um novo paradigma, sai essa escassez e esse medo e entra a colaboração e a abundância.”

Assim, a Bhava é tida por seus fundadores como uma forma de colocar em prática o novo, a partir de um campo de experimentação e aprendizado constante, com “integração do velho modelo com o novo para que as coisas possam fluir dentro das possibilidades”, comenta Leandro. Neste novo paradigma, a Bhava não tem clientes, e sim uma comunidade, ou seja, “pessoas que se apoiam e que se sustentam – então quando uma pessoa compra um cosmético da Bhava, ela não está comprando um item qualquer, ela está fazendo parte de um processo de criação, sabendo cada etapa dele”. Para os fundadores, isso faz sentido porque, “quando você se coloca a serviço do todo, você é nutrido por esse todo”. Como se percebe, esta fala se conecta ao pilar da integralidade, quando, no paradigma Teal, entendemos que somos um com a natureza, portanto, estando a serviço dela, estamos a serviço de nós mesmos, como vemos no livro Reinventando as Organizações (pg. 49) em “a mudança para o estágio Evolutivo-Teal vem de uma abertura para um campo de transcendência espiritual e um senso profundo de que em algum nível somos todos conectados e partes de um todo maior.”

 Na perspectiva de Leandro, algo que a organização aprendeu a fazer, a executar na prática de forma genuína e autêntica, em direção a uma nova história de mundo por meio das organizações, é justamente o aprendizado constante de lidar com novos caminhos. Nas suas palavras: “você pode trilhar esses novos caminhos, honrando a sua ancestralidade, que te trouxe até aqui em termos de visão de negócio, e criar o novo”. Ele ilustra este aprendizado constante, por exemplo, no processo de aprendizado da Bhava para chegar às fórmulas de seus cosméticos e no seu modelo de negócio open source, que se deu na experimentação com a comunidade. “Nós ficamos dois anos aperfeiçoando só a partir de feedback” conta Leandro. 

Autogestão e integralidade na organização do trabalho – o desafio

O desenho da estrutura organizacional e distribuição de trabalho na Bhava foi um desafio desde o começo. Inicialmente, foi desenhado um modelo em rede para ser totalmente aberto e autogerido. Entretanto, isso gerou um desafio organizacional, na medida em que as atividades precisavam acontecer e nem sempre havia engajamento para tanto. Por consequência, a Bhava optou por recuar e pensar em novas formas de estimular a participação, vivenciando o aprendizado, especialmente em relação às pessoas, da necessidade de manter interações híbridas, em que o novo e o velho paradigma são mesclados, como forma de mostrar novas possibilidades e respeitar a vontade e o tempo de cada um. Isso ocorre, na perspectiva de Leandro, pois o “inovador é um traidor, ele está traindo tudo que veio atrás, mas ao mesmo tempo ele está levando para frente – estamos rompendo, abrindo novas possibilidades”.

Seguindo essa linha de raciocínio, os fundadores optaram por um fluxo de trabalho em rede, sem funcionários, organizado a partir da contratação de parceiros que empreendem em suas respectivas áreas de expertise e que tenham propósitos individuais alinhados com a iniciativa. O novo paradigma, para os fundadores, é integrado a partir do diferencial que a Bhava tem em relação aos outros projetos e iniciativas que se envolveram: está em “você encontrar um projeto que você possa ser pleno, ser livre e aquilo que realmente faça sentido para você”. 

O foco da organização consiste em que as pessoas possam ser elas mesmas no que fazem, sendo autênticas e fazendo por paixão e não por obrigação. A ideia é que a organização passe pela integralidade da sua rede de parceiros, “escolhendo o que querem fazer, com qual cliente, com qual carga horária e com qual é valor da carga horária, podendo trabalhar quando e de onde quiserem”, comenta Leandro. Enquanto isso, o velho paradigma se expressa na percepção apresentada por Leandro  em relação à atual centralização da gestão nos fundadores, diante de um andamento do negócio que ainda depende muito de ambos. Esse cenário, segundo ele, parte da sua própria personalidade mais controladora, além da dificuldade em estruturar um processo que abrace a integralidade dos envolvidos e ao mesmo tempo estruture a autogestão e sustente a continuidade do negócio. Nas suas palavras “para nós uma liderança sistêmica é importante, então, na Bhava, a gente sai na frente e acolhe todos que chegam. A partir de nossos aprendizados anteriores, nos dispomos a puxar o bonde”. 

Nestas falas, fica refletido o paradoxo entre intenção (soltar e confiar) e ação (controlar para garantir), no sentido de os fundadores da Bhava terem a intenção de gerar comunidade e conduzirem iniciativas com outras marcas e parceiros para tanto, e, ao mesmo tempo, dentro da Bhava a gestão das atividades ser ainda centralizada nos fundadores. São apresentados, portanto, desafios no pilar Teal da autogestão, mostrando um potencial de ampliação de espaços de participação e de descentralização da autoridade entre os parceiros da Bhava. A intenção de trilhar esta jornada de transformação e de aprendizados já é apresentada por Leandro: o “próximo exercício é a gente dar uma relaxada na centralização, deixando as coisas fluírem mais organicamente”. Nesse sentido, são levantadas questões a serem pensadas: Quais são as práticas que podem superar a permanência do controle? Como integrar os agentes da rede de forma horizontal e autogerida? Quais são as práticas necessárias para integrar o engajamento da rede? Quais são os desafios que essa jornada pode gerar? Como superá-los? 


Bhava Biocosméticos

Levar cosméticos de verdade e viver em harmonia com todos os seres, estes são os pilares que sustentam o propósito da Bhava Biocosméticos Livres. Desde 2015, a iniciativa vem buscando viver e se relacionar em um novo paradigma, se constituindo como um negócio 100% Open Source com produção distribuída e em rede.